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terça-feira, 19 de julho de 2016

Sexo além do cotidiano


     Algumas pessoas tem necessidades que talvez devessem ser chamadas de sofisticadas. O mundo pode ser muito entediante e as pessoas aborrecidas quando temos sede do excêntrico e do exótico. O sexo é o lugar por excelência para encontrar isso, uma vez que ele é a encruzilhada do mistério de toda a vida. Essas palavras não devem ser tomadas levianas ou consideradas como palavras de efeito. O sexo é mesmo o lugar dos mistérios da vida e da morte. Essa afirmação é fruto de dedicado estudo e muita experimentação.

    Neste momento quero dar destaque não às teorias do sexo, mas aos seus transes, ao seu êxtase. A maioria das pessoas vive a sexualidade com a mesma falta de cerimonia com que se come pipoca e assim o sexo se torna uma coisa entre outras vulgares do cotidiano. Isso me deixa perplexo. Raras são as pessoas que antecipando-se às possibilidades de arrebatamento ritualizam e aperfeiçoam-se no sexo ao ponto de arrancar dele suas mais convulsionantes expressões de transcendência.


    Revira-me o estômago a possibilidade de viver uma vida inteira e ter no sexo apenas a experiência que se tem ao comer uma fatia de pizza fria que sobrou para o dia seguinte. E não estou dizendo que nunca o sexo deve ser assim e que não poderá ser bom sendo assim mesmo. Não é este o caso. Talvez a ebulição máxima não seja para todas as horas. No entanto, fazer sexo com regularidade e nunca buscar o evento de dissolução... ah, que triste.

    O sexo é um lugar privilegiado para a experiência dos mais surpreendentes personagens de si mesmo. A experimentação, o lúdico, a transgressão, isso é viver a sexualidade em intensidade. Ser algoz e vítima, ser rei e ser humilhado, ser herói e vilão, ser um tirano e o redentor chegar a possibilidade última do que podemos ser na relação com o outro, eis a obra que chega a nos desconstruir para melhor nos perdermos e misturar ao outro.


    Tem que se refinar o trato para se usufruir do requinte desses sabores. Deve-se aprender a falar essa língua oculta dos corpos que abre os acessos secretos ao frenesi e ao desfalecer. Há que se flutuar no céu  vibrante que testa os limites do divino e do animal no humano, para vencer o tédio do lugar comum.

(Texto escrito para um amigo auto intitulado Cel_Tyler_Dillinger, que infelizmente achou que era um texto pronto e não a exultação espontânea de encontrar uma alma com fino gosto sobre o sexo.)