A maioria das pessoas não sabe explicar como sexo, morte e violência se articulam. Porém, não é isso que impede que as pessoas tenham a intuição de que há uma violência por detrás do sexo. Seja na memória da descoberta que os pais faziam sexo que sempre é acompanhada do mal estar de descobrir que a mamãe era fodida pelo papai, seja no preconceito popular que classifica o passivo como inferior ao ativo, e também no sentido que ele sofre a penetração, ou ainda no impulso de fazer um sexo mais agressivo, dar tapas, morder, arranhar, gritar e xingar o outro, por aí se intui a violência.
O sexo é uma exuberância da vida, mas nem por isso a destruição, a violência e a morte são temas que se afastam do sexo. Essa violência implícita algumas vezes se explicita por meio da arte popular. E a sequência de vídeos colocada aqui mostra justamente como temas aparentemente tão distantes como sexo e morte se ligam no imaginário humano.
O primeiro vídeo apresenta toda a elegância de um clipe que trata de abuso e violência em uma relação amorosa com uma letra que versa sobre um amor desencontrado na impossibilidade de se expressar abertamente. Abrimos com o clipe Tell me where it hurt's da banda estadunidense Garbage. A ambientação do vídeo apresenta um glamour burguês da década de setenta e os efeitos de cortes rápidos que acompanham a evolução da música e mostram ou sugerem cenas violentas tem um requinte especial. Tudo isso em uma levada musical que emula o estilo setentista e brilha com os ótimos músicos da banda Garbage, cuja joia em destaque é a vocalista escocesa e ruiva Shirley Ann Manson que protagoniza o clipe.
O segundo clipe também procura uma ambientação setentista, mas com uma fina e leve ironia que brinca com os figurinos das academias de aeróbica da época. Temos em cena o clipe Alive da banda Goldfrapp. A banda britânica Goldfrapp tem em seu repertório desde o dance oitentista até eletro pop soturno, passando por um experimentalismo palatável e provocante. A voz de Alisson Goldfrapp vai do angelical ao sensual e já conquistou elogios de críticos e revistas do mundo todo. O clipe Alive coloca em jogo figuras masculinas punks de aparência agressiva e moças bonitas vestidas para aeróbica na academia e todos como que assistidos e até comandados por Alisson. Ao final do clipe se revela quem eram as verdadeiras ameaças e se consuma o sacrifício ritual, tudo em um clima de vampiro que, novamente deve ser dito, ironiza as imagens tradicionais dessas criaturas. Os efeitos propositadamente bregas não são impeditivos para que o clipe tenha sensualidade e libidos autênticos expressos principalmente pelas caras e bocas de dançarinos do clipe. A letra fala do renascer para um novo amor, como o nascer de um novo sol e da admiração pela atitude do amado.
Pois bem, os dois primeiros clipes eram apenas introdução, agora é que a porca sádica, tarada e pervertida torce o rabo. Nossa, gostei dessa porca, alguém sabe para onde ela foi??? Muito bem, o clipe é feito em parceria entre o francês Juan de Guillebon, conhecido como Dye e o vocalista, DJ e produtor americano Gregory Broussard, conhecido como Egyptian Lover. O clipe mostra a tentadora Aude Auffret passeando em volta de um ambiente de tiki bar, seu rosto substituído por recortes de imagens da biblioteca de vida selvagem e fontes vulcânicas efervescentes, no estilo do filme "Viagens Alucinantes" (Altered States) de 1980. “Estávamos olhando para as colagens em camadas de John Stezaker e mencionamos um livro de tatuagens e como elas se sentam no corpo”, disse a dupla de cineastas Jean-Philippe Chartrand e Benjamin Mege, que criaram trabalhos animados coloridos para a Modeselektor e o compatriota beat-freak Sebastian, sob o apelido de Dent de Cuir. O vídeo feito para Dye - o curta-metragem extremamente NSFW de Jérémie Périn sobre sexo e sangue para o lançamento de 2011 "Fantasy" - acumulou mais de 48 milhões de acessos no YouTube até agora. “Foi uma coisa difícil de acompanhar”, diz Guillebon. "Espero que este seja louco o suficiente para as pessoas.". O que você verá no clipe She's bad é a animalidade do jogo da presa e do predador transpassados para a cena de sedução e conquista humanas por meio de um diálogo inteligente e criativo de cenas da natureza passando pelo corpo dos protagonistas enamorados.
Finalmente, chegamos ao ápice de nossa proposta em clipes com a temática de sexo, violência e morte. O clipe Corporate Occult com a música de Huoratron (nome artístico do autor finlandês de música eletrônica, Aku Raskie) a direção do cineasta francês Cédric Blaisbois representa em nossa lista o auge de violência ligada ao sexo. O clipe é todo feito no estilo realista, com visão noturna, o que cria uma atmosfera inigualável de suspense e terror. Dentro de um prédio todo escuro se desenrola a aventura sexual de uma garota e um rapaz, repentinamente, em meio a isso, ela se transforma em um monstro e o resultado você deve imaginar.
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